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Clube da Esquina é Minas Gerais (se você não é mineiro, não vai conseguir compreender)

  • Foto do escritor: Clara Campos Bicho
    Clara Campos Bicho
  • 8 de nov. de 2024
  • 4 min de leitura

Atualizado: 29 de jun.

Sou o mundo, Sou Minas Gerais


Ilustração por Thalia Vargas
Ilustração por Thalia Vargas

Considerado por muitos críticos de arte um dos maiores álbuns da música brasileira de todos os tempos, o disco "Clube da Esquina (1972)" tornou nacionalmente conhecido o grupo homônimo de músicos e compositores mineiros. De relevância nacional e internacional, as canções do disco assinado por Milton Nascimento e Lô Borges foram regravadas por outras lendas da MPB, como Elis Regina e o maestro Tom Jobim, que disse que gostaria de ter composto a canção Trem Azul. Os mineiros, ainda mais tarde nos anos 2000, foram sampleados por grandes artistas estadunidenses do rap e do R&B, como Kanye West e Pharrell Williams.


Gravado entre 1971 e 1972, durante a ditadura do governo Médici, o disco, assim como as demais produções artísticas da época, sofreu com as repressões e censuras dos militares. No álbum "Clube da Esquina", as críticas ao contexto político da época são apresentadas ao lado de temáticas relacionadas aos valores da contracultura e aos aspectos da identidade regional mineira. O disco se distingue pelas complexidades rítmicas e pela versatilidade poética e musical, além do caráter espontâneo, coletivo e amistoso que envolve todos aspectos da obra: musicais, literários e visuais. Quanto aos gêneros musicais das canções presentes no LP, assim como no grande ideário nacional popular dos anos 1960-1970, apresentam sonoridade densa em diálogo com o cool jazz, com o samba-jazz e com a bossa nova, além de elementos que contemplam a religiosidade e a cultura popular de Minas Gerais, além de características que se enquadram em vertentes do rock.


Até então, na MPB da década de 1970, as canções costumavam retratar as ruas de Salvador na Bahia, a grande cidade de São Paulo, as praias de Ipanema e Copacabana, no Rio de Janeiro… Mas, e as montanhas de Minas Gerais? Bem, essa demanda foi resolvida pelo grupo de músicos e compositores do Clube da Esquina, coletivo que surgiu da amizade entre Milton Nascimento e os irmãos Borges (Marilton, Márcio e Lô) no bairro Santa Tereza em Belo Horizonte. Nomes e paisagens que podem parecer muito distantes para os estrangeiros e os brasileiros de outros cantos do país, para nós mineiros são bastante familiares.


A relação com o Clube se entrelaça à relação com o nosso estado e, mais particularmente, com a capital Belo Horizonte. As letras de Márcio Borges, Ronaldo Bastos e Fernando Brant ganham ruas e endereços, as vozes de Lô Borges, Beto Guedes e Milton Nascimento me lembram das serras, de tomar café com a minha avó, de ouvir meus pais tocando violão e cantando quando eu era criança, de ir ao Bar do Bolão em Santa Tereza com os meus amigos, de ouvir o meu tio de Três Pontas dizer que já viu o Bituca na padaria, de ouvir o meu pai contar de quando ele tomou cerveja com o Beto Guedes nos anos 90 (mais de uma vez, inclusive!), de viajar pelo estado com a trilha sonora do Clube na cabeça. O "Trem de Doido" e o "Trem Azul" fazem muito mais sentido quando você é um conterrâneo. Os artistas do Clube transmitem o orgulho de ser mineiro, já cantava Milton Nascimento em Para Lennon e McCartney: “Sou o mundo, sou Minas Gerais.”


A afetividade do Clube da Esquina vem, inclusive, da origem do próprio grupo, que não tinha uma concepção preestabelecida sobre a ideia de movimento musical, mesmo que seu nome seja título de dois LPs e de duas canções. Na verdade, o título faz alusão à esquina próxima da casa onde moravam os irmãos Borges: as ruas Divinópolis e Paraisópolis, na zona leste de BH. O “Clube” e a “Esquina” são, na verdade, espaços muito mais simbólicos do que físicos. Basicamente, uma reunião genuína de amigos que eram músicos e foram fazendo música juntos. Na época, o Milton Nascimento já era o Milton Nascimento, aos 30 anos e com hits como "Travessia" e "Canção do Sal", enquanto o Lô Borges e o Beto Guedes, por exemplo, eram artistas desconhecidos de 20 e poucos anos de idade.


A amizade entre os integrantes do Clube e o movimento de valorização do nosso estado permeiam os sons, imagens e as mensagens das músicas. O caráter artesanal, orgânico e grupal do Clube da Esquina se deve à espontaneidade do projeto.

Em entrevista para a Rádio Batuta do Instituto Moreira Salles (2013), Ronaldo Bastos fala sobre essa característica do grupo: “O Clube ‘1’ era praticamente sem ser [...]. A gente estava criando, assim, do nada”.

Quando o álbum foi lançado, Milton Nascimento era o único integrante famoso do Clube e muitos dos artistas eram muito jovens, como Lô Borges e Beto Guedes, que tinham 20 e 21 anos. Segundo Lô Borges para o Museu Clube da Esquina (2022), os arranjos das músicas “eram feitos na hora”. E, sobre as gravações, que “tudo era ao vivo; eram dois canais só. Você tinha que fazer toda a parte instrumental de uma vez só. E tinha que acertar. Se alguém errasse, derrubava o resto”.


Para nós mineiros, o Clube da Esquina acaba sendo, também, uma reunião de amigos, familiares, paisagens, ruas e nomes em formato de sons. Praticamente uma trilha sonora da vida.


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