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De Lestat a Nosferatu: por que os vampiros continuam voltando

  • Foto do escritor: Vinícius Micheletto
    Vinícius Micheletto
  • 26 de out. de 2025
  • 4 min de leitura
Lestat De Lioncourt (Sam Reid) agora como astro do rock. Reprodução.
Lestat De Lioncourt (Sam Reid) agora como astro do rock. Reprodução.

A AMC lançou recentemente o trailer da terceira temporada de Entrevista com o Vampiro, agora intitulada The Vampire Lestat, que adapta o segundo volume das Crônicas Vampirescas de Anne Rice (1941–2021). O vídeo nos re-apresenta Lestat (Sam Reid), talvez o que eu diria ser o mais fascinante e polêmico dos vampiros da cultura pop, agora em uma nova fase ambientada na era do rock, dos clubes e das drogas. No trailer, somos mergulhados em um imaginário típico do ser vampiro mesclado à cultura norte-americana da segunda metade do século XX. Vemos ali um ser da noite, das sexualidades dissidentes, do prazer e da dor. Vemos música, sexo, excitação, e, claro, muito sangue.


Como fã da série, foi impossível não me empolgar com o que vem por aí, previsto para o início de 2026. Mas a minha animação, no entanto, vai além do fascínio pelo gênero. Há algo instigante na liberdade que essa figura mitológica [vampiro] mantém ao longo dos séculos, sempre se reinventando para refletir as tensões do presente. Neste ano em particular, o que não faltou foram produções que os colocassem novamente nas telas de cinema e dos serviços de streaming. Assim como a nova adaptação de Lestat, diversos outros vampiros se atualizaram em uma nova forma de carregar, em sua monstruosidade, o reflexo das angústias humanas.


Foi com essa sensação que assisti a Pecadores (2025), um filme que retomou o mito sob outro prisma. Ambientado em 1932, no Mississippi, a narrativa se desenrola em torno de um bar da comunidade negra local, comandado pelos gêmeos Smoke e Stak. Ali, os vampiros surgem como espíritos do mal, ainda à espera de um convite para entrar, mas sempre prontos para atacar. Apesar da distância em tom e estilo das Crônicas Vampirescas, o filme ressoa – penso eu – um mesmo gesto simbólico: o vampiro encarna o racismo, a segregação, as hierarquias que insistem em sobreviver. Pecadores, de Ryan Coogler, transforma o monstro em metáfora das violências que o tempo histórico tenta apagar, mas que continuam pulsando nas margens.


No mesmo caminho, Nosferatu (2024), de Robert Eggers, outro filme vampírico, revisitou o clássico expressionista de Murnau, agora em uma atmosfera de obsessão e desejo, na qual o vampiro, interpretado por Bill Skarsgard, deixa de ser apenas a figura da peste e torna-se um símbolo do amor que consome e destrói. A estética sombria e ritualística, somada ao contraste entre o erótico e o grotesco, devolve à criatura mitológica sua dimensão trágica de um ser que deseja a vida, mas só a obtém através da morte do outro. Aqui, assim como nas outras obras recentes, o vampiro clássico do cinema capta agora as ansiedades de um tempo de pandemia, de ruínas, ao mesmo passo que busca afetos, desejos e prazer.


E esses são os exemplos mais próximos, mas podemos pensar em tantas “obras vampíricas” ainda nos anos 2000 e que tiveram um grande apelo popular – esses tempos me peguei (re)assistindo todas as temporadas de True Blood. Mas o que Nosferatu, Pecadores e The Vampire Lestat me fazem pensar é que essas figuras retornam incessantemente porque são, em alguma medida, o espelho dos sentimentos humanos. São presenças que nos permitem olhar de frente aquilo que preferimos manter escondido: o desejo, a diferença, o corpo, a morte. Hoje, quando as narrativas buscam revisitar e reescrever essa figura sob novas perspectivas – ou não tão novas assim –, sejam elas queer, raciais ou pós-humanas, o vampiro segue se oferecendo como metáfora para pensar a vida nas bordas do mundo normativo, nas angústias e nos sentimentos que insistem em permanecer nas sombras.


Em Our Vampires, Ourselves, um livro lançado ainda nos anos 90 também sobre vampiros, a professora Nina Auerbach sugere justamente que não existem vampiros fora de seu tempo. Cada era cria o monstro que precisa para expressar suas próprias ansiedades, medos e desejos reprimidos. O vampiro, mais do que uma criatura sobrenatural, é um retrato mutante da condição humana, um espelho do que a cultura teme, anseia ou ainda não consegue nomear. É ele quem dramatiza, de modo alegórico e sedutor, o preço da sobrevivência em uma cultura que ainda esconde suas agonias. Talvez por isso os vampiros nunca nos deixem.


Talvez os vampiros sejam aqueles que se recusam à luz plena, os que desafiam as fronteiras do aceitável, os que continuam a existir nas diferentes formas apesar, e por causa, de sua diferença. De Nosferatu a Lestat, dos vampiros de True Blood e Blade a Pecadores, cada figura em sua narrativa encarna o modo como o poder, o corpo e o desejo se reconfiguram diante das mutações históricas e afetivas. Eles não são apenas monstros, são espelhos de uma humanidade que insiste em se reinventar no limiar entre a vida e a morte, entre o desejo, entre o sangue e a palavra.


E é isso que me empolga tanto nessa temática e me anima a ver uma nova versão de Lestat, um personagem escrito há mais de 50 anos, ainda em 2025. E talvez seja por isso, também, que os vampiros nunca tenham saído ou vão um dia sair de cena. Eles apenas mudam de rosto, de estética, de época, mas continuam a retornar para lembrar que, por trás do sobrenatural, há sempre algo de humano, uma sombra que se recusa a desaparecer.


Assista ao trailer de The Vampire Lestat:



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