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Eu assisti Emilia Pérez para que você não precisasse passar por isso

  • Foto do escritor: Júlia Ennes
    Júlia Ennes
  • 26 de jan. de 2025
  • 6 min de leitura

Atualizado: 29 de jun.

O filme de Jacques Audiard sobre uma mulher transsexual chefe de cartel mexicano entrega estereótipos, sotaques ruins e números musicais tenebrosos


Três troféus dourados sobre fundo preto e vermelho, em composição gráfica abstrata e contrastante.
Ilustração por Theo Vargas

Desde a cerimônia do Globo de Ouro 2025, as redes sociais foram tomadas por trechos do filme Emilia Pérez (2024), publicados por gringos revoltados com a vitória sobre Wicked, na categoria de melhor musical, e brasileiros insatisfeitos com a derrota de Ainda Estou Aqui, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.


Lançado em maio de 2024, durante o Festival de Cannes, o filme conquistou o Prêmio do Júri, além da categoria de trilha sonora e de melhor elenco feminino. Com isso, Karla Sofía Gascón se tornou a primeira mulher trans a ganhar este prêmio.


O musical chegou a cerimônia do Globo de Ouro como o longa com maior número de indicações (10, no total) e acabou faturando 4 troféus: Melhor Filme - Comédia ou Musical, Melhor Filme em Língua Estrangeira, Melhor Canção Original e Melhor atriz coadjuvante para Zoe Saldaña. E não deve parar por aí – as expectativas estão altas para o Oscar.


Diante de todo esse alvoroço, decidi assistir ao filme para tentar entender se as cenas compartilhadas nas redes sociais estavam fora de contexto — como alguns fãs defendem — ou se o filme é realmente tão ruim quanto pintam. Spoiler: sim, é simplesmente ruim.


Caso os conteúdos sobre Emilia Pérez não tenham chegado até aí e você não faça ideia do que se trata esse filme, eu explico: o musical, escrito e dirigido pelo cineasta francês Jacques Audiard, conta a história de um líder do cartel mexicano, até então chamado Manitas del Monte (Karla Sofía Gascón), que contrata Rita (Zoe Saldaña), uma advogada, para ajudá-lo a concluir a transição de gênero.


Rita encontra um excelente médico para executar as cirurgias de afirmação de gênero, manda a esposa de Manitas (Selena Gomez) e os filhos do chefe do crime para um local seguro e forja a morte dele. Após vários procedimentos, Manitas, então, deixa o mundo do crime e torna-se de Emilia Pérez. Detalhe: tudo isso é contado com números musicais de qualidade duvidosa.


Por mais inusitado que o conceito deste filme possa parecer, eu defendo que o formato escolhido não é o problema. Musicais são extravagantes e isso acaba por combinar com um toque de telenovela mexicana, que acredito que a direção tenha tentado adicionar na narrativa. O problema não é ser um musical, mas sim um musical ruim.


Apesar da popularidade nas premiações, Emilia Pérez enfrenta duras críticas, especialmente por parte do público e de cineastas latino-americanos. Os problemas são a forma estereotipada como o México é retratado e a ausência de talentos mexicanos em posições de destaque na produção. Do elenco principal, apenas Epifania Flores é interpretada por uma atriz mexicana, Adriana Paz (que aparece apenas na segunda metade do filme).


Ainda na fase de promoção do longa, em uma entrevista, a diretora de elenco Carla Hool afirmou que "não havia atores mexicanos talentosos o suficiente" e que seu foco "era achar a pessoa para interpretar as personagens, sem focar muito no espanhol". Deu para perceber…


As cenas ambientadas no México retratam um país miserável, quase distópico e pós-apocalíptico. A violência é generalizada e, todos no poder, seja político ou econômico, estão envolvidos com a criminalidade. As cenas são escuras, amontoadas de gente, principalmente, as que se passam nas ruas, onde se vê o comércio informal. É como se Blade Runner se passasse no México.


Insensibilidade ao retratar a violência dos carteis e representatividade trans confusa


A trama em si também é muito problemática. A transição de gênero de Emilia é acompanhada por uma suposta mudança de consciência. Ela decide criar, com ajuda de Rita, uma instituição filantrópica para tentar reparar os erros do passado, ajudando a encontrar pessoas desaparecidas e mortas pelos carteis.


A personagem posa de salvadora da comunidade, das famílias dos desaparecidos, sem revelar que ela mesma foi a causadora daquele sofrimento. A narrativa soa muito insensível diante da realidade de um país com mais de 100 mil pessoas desaparecidas, segundo dados oficiais.


Além disso, o longa também apresenta uma visão retrógrada de pessoas trans. A lógica por trás do arrependimento de Emilia é de “matando a versão anterior de si” mesma, ela teria virado outra pessoa – em um certo momento a personagem chega a dizer que existe esse outro “eu” mau dentro dela. O problema é que esses dois “eus” são o mesmo e o ato de fazer a transição por si só não o absolve de alguma forma do seu eu passado.


A insensibilidade do filme atinge seu ápice na música Para. A faixa é boa, o coral mexicano é um acréscimo positivo, e a cena em si é emocionante. Contudo, ao analisarmos a letra e o contexto da cena, tudo desmorona.


A música é cantada quando milhares de pessoas começam a procurar a instituição fundada por Emilia e Rita. A letra mistura o sofrimento das vítimas e a busca por redenção dos criminosos, como se ambos os lados tivessem o mesmo peso emocional. E é aí que Emilia Pérez falha: tenta sensibilizar o público ao tratar de temas como a violência dos carteis, mas acaba banalizando a gravidade dessa violência.


Mais números musicais e performances desastrosos


Depois da cena viral, em que Zoe Saldaña e uma equipe de cirurgiões tailandeses cantam em dueto “Man to woman or woman to man? / Man to woman / From penis to vagina” (juro, é um trecho da música La Vaginoplastia), eu achei que o pior já havia passado.


Após da transição de Emilia, o filme toma um ritmo e visual diferentes, indo de um thriller escuro para um melodrama mais iluminado. Acreditei, por um momento, que os selenators estavam certos e que aquela cena por si só não podia resumir a obra como um todo. Errado! As performances musicais ruins continuam a acontecer e a temática vai ficando ainda mais banal. Lembra da história da diretora de elenco buscar talentos sem focar tanto no espanhol? Pois é. A atriz e cantora Selena Gomez é americana de ascendência mexicana, mas não fala espanhol – e isso fica muito claro.


Selena já não é uma atriz muito expressiva, em seus últimos trabalhos como Only Murders in the Building ela tem entregue uma performance blasé, com falas monótonas (mas eu adoro a série!). E se isso já acontecia em inglês, sua língua nativa, tentar falar espanhol só piorou: o sotaque é forte e a pronúncia sai engessada, mesmo quando cantada. A própria atriz, depois de receber críticas, falou que não conseguiu treinar o suficiente, mas que fez o que pode. Ela, inclusive, interpreta a faixa Bienvenida, um dos piores números do longa.


Embora a personagem de Selena não seja mexicana, essa informação ficou meio perdida na narrativa, e fica difícil ignorar a pronúncia ruim. Esse detalhe sobre a personagem foi adicionado ao roteiro, após a diretora de elenco perceber dificuldade de esconder o forte sotaque da atriz. Porém, no resultado final, a solução parece improvisada e a impressão que fica é que a escolha de casting foi equivocada. Certa era Glória Perez com seus estrangeiros que falavam português pra evitar maiores problemas… (brincadeira, tá, gente?).


É top ou flop?


Em resumo, Emilia Pérez é um filme ruim, do conceito à execução. A crítica à violência dos carteis mexicanos, assim como a mensagem de empoderamento feminino e trans são rasas e mal desenvolvidas. E a maioria das músicas são ruins demais para nos conquistar por esse lado.


Talvez se o filme tivesse se levado menos a sério, optado por um tom mais irreverente, as performances musicais ruins teriam sido recebidas como ruins de propósito, uma coisa meio pós-irônica. Ou, se tivesse assumido que Emilia é uma vilã e continuasse como uma grande chefe do crime mesmo depois da transição de gênero, talvez a gente pudesse fechar os olhos para toda a problemática da estereotipagem mexicana e encarasse a produção como um filme de ação meio trash, a lá Velozes e Furiosos ou D.E.B.S. - As Super Espiãs – nenhum senso crítico, apenas mulheres trans e lésbicas sendo girl boss do crime.


Mas Audiard se perde tentando fazer muito sem ter conhecimento de causa, e o resultado é um filme inconsistente, com uma representação problemática do México e das pessoas trans. Emilia Pérez é um filme que só poderia ter sido feito por alguém de fora do México ou da América Latina. Esse é um dos piores filmes que vi nos últimos tempos — e olhe que recentemente tivemos Joker: Folie a Deux.


Eu assisti Emilia Pérez para que você, caro leitor, não precisasse passar por isso. Me sacrifiquei para poupar você desse desastre cinematográfico. Mas, se você é do tipo que precisa ver com os próprios olhos, vá em frente: Emilia Pérez estreia oficialmente nos cinemas brasileiros em 6 de fevereiro. Só não diga que eu não avisei.


Nota: 2/5


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