Hayao Miyazaki é muito melhor do que Walt Disney
- Clara Campos Bicho

- 12 de jan. de 2025
- 4 min de leitura
A humanidade das protagonistas femininas do Studio Ghibli

Era uma tarde de algum dia em algum ano de 2000 e minha mãe trazia para casa mais um filme direto da locadora do bairro. Era "A Viagem de Chihiro" (2002), de Hayao Miyazaki. Assistimos na sala, eu, ela e meu irmão Gabriel. Diferente de tudo que eu já tinha visto, era colorido, denso e marcante. Uma imagem específica ficou na minha mente ao longo do tempo: um dragão branco gigante sangrando que corria e uma menininha que parecia correr junto com ele. Quando fiquei mais velha um pouco, lembrava-me dessa cena mas não sabia o nome do filme, nem o que era o Studio Ghibli formalmente. Nesse mesmo período, fomos à locadora, eu, minha mãe e meu irmão, dessa vez, alugar um novo filme sobre peixinhos, era "Ponyo" (2008).
Historicamente no Brasil, consumimos dois tipos de produções audiovisuais: as importadas dos Estados Unidos, como os filmes e as séries, e as narrativas nacionais repletas de melodrama, como as telenovelas. De acordo com Mittel (2004), os gêneros são “categorias culturais” e, não, blocos uniformes e estáticos no tempo e no espaço. Ou seja, os objetos midiáticos são intrinsecamente ligados à cultura de um povo, à uma época e a um determinado local. Mas, o que isso tem a ver com Ponyo, Studio Ghibli e Hayao Miyazaki?
Com seu trabalho no Studio Ghibli, o artista japonês Hayao Miyazaki, autor dos filmes que eu assisti quando criança, subverte completamente a lógica dos produtos audiovisuais que nós brasileiros costumamos assistir. Diferentemente do melodrama das novelas, Miyazaki não lida com a dimensão moral de suas histórias de forma maniqueísta: uma personagem não é completamente “boa” ou completamente “ruim”. O autor apresenta grande complexidade ou, melhor, humanidade, às suas personagens, que são repletas de emoções, sonhos, medos, dilemas, qualidades e defeitos.
E é seguindo a lógica de humanização de suas histórias que Hayao Miyazaki acerta em todos os seus filmes: ele representa as personagens mulheres como sujeitos que são, além de tudo, sempre protagonistas em suas obras. Tanto em Ponyo quanto em A Viagem de Chihiro, as personagens principais são mulheres, nesses casos, meninas. E essas meninas são representadas com força, inteligência, coragem, bondade e doçura, ao mesmo tempo, que são crianças, com características próprias de cada faixa etária.
Ao contrário dos famosos filmes da Disney e das histórias de princesas ocidentais, as mulheres não são objetos passivos de serem salvos, protegidos, escondidos ou exibidos. E os homens, que historicamente são representados como os heróis que salvam as mulheres, para Miyazaki, são os companheiros que as auxiliam durante suas jornadas em razão de laços afetivos, quase sempre de amizade. Como se não fosse bom o suficiente, o autor consegue expressar tudo isso de forma natural e sutil em seus filmes, com diálogos e interações simples, o que pode parecer paradoxal diante da grandeza criativa do Studio, que apresenta histórias repletas de cores, cenários e personagens que, à primeira vista, podem parecer muito fantasiosos.
Segundo o pensamento de Martín-Barbero, em seus estudos sobre mediação na telenovela, o excesso que costumamos ver em produções audiovisuais geralmente está nas atuações, nos diálogos, nos roteiros e até nas trilhas sonoras espetaculares. No entanto, na obra de Hayao Miyazaki o excesso está na qualidade de seus cenários, muitas vezes pintados à mão e transpostos para a animação digital, na beleza de suas trilhas sonoras, que vão desde instrumentais singelos a orquestras completas, geralmente com músicas compostas para cada filme e personagens…
Mais do que um cineasta, Miyazaki é um artista completo, genuíno. Ainda sim, o animador transparece completo desprendimento de títulos, prêmios (apesar de já ter recebido uma homenagem com um Oscar honorário), dinheiro ou fama. Sua personalidade autêntica e pouco esperada socialmente para um premiado cineasta, inclusive, já tornou-se meme pelos usuários mais jovens da redes. Encontrei um artigo na revista YokoGao intitulado, originalmente em inglês, The Harsh Quotes of Hayao Miyazaki, algo como “as frases duras de Hayao Miyazaki”, nele estão trechos de entrevistas do artista que deram origem às brincadeiras online sobre ele feitas por fãs.
Hoje penso que, para mim, não há espantamento algum em relação ao comportamento “polêmico” do autor: Hayao Miyazaki transparece o humano, que muitas vezes somos tentados a reprimir dentro de nós. Ele desafia normas sociais, desde as estruturas patriarcais que submetem as mulheres a posições degradantes, até ao que muitos podem esperar dele, um homem bem sucedido e admirado no mundo todo.
Sem máscaras, mostrando-se vulnerável e ao mesmo tempo forte, Miyazaki divide com o público, dentro e fora dos filmes, sentimentos que vão da alegria à tristeza, do medo à coragem, da empolgação ao cansaço… “Eu gostaria de fazer filmes para dizer às crianças que é bom estar vivo”, disse o autor em entrevista à MUBI. Bem, com certeza viver é melhor do que sonhar, como dizia Belchior.
Obrigada Hayao Miyazaki por representar nós mulheres de formas tão naturais, humanizadas e sensíveis. Obrigada à minha mãe por me apresentar "A Viagem de Chihiro" e "Ponyo", que ainda é meu filme favorito, desde criança. Quem sabe a humanidade seria bem melhor (ou menos pior) se todos pudessem incorporar ao coração os valores da obra (e da vida) do senhor Miyazaki.



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