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Likes, Pinterest e capital social: os artistas de hoje são menos autênticos que os “artistas de ontem”?

  • Foto do escritor: Clara Campos Bicho
    Clara Campos Bicho
  • 25 de out. de 2024
  • 4 min de leitura

Atualizado: 29 de jun.

O que acontece com a criatividade quando nunca mais estamos entediados? A partir de lembranças da adolescência, percorremos as transformações da experiência artística em um mundo dominado por telas


Ilustração Digital por Thalia Vargas.
Ilustração Digital por Thalia Vargas.

Posso dizer que eu comecei a levar a sério ser artista há uns 10 anos, quando era uma adolescente que ficava sozinha desenhando na escola. Todo dia, em uma bolsa enorme toda desenhada por mim e de cor amarela pouquíssimo discreta, eu levava para a aula os meus materiais de arte e ficava, durante o recreio, treinando. Na época, não tínhamos smartphones e quase nenhum colega tinha uma conta no Instagram, por exemplo. Então, as minhas principais referências eram os mangás que lia e coisas coloridas que via no geral. Honestamente, não sei como, no final das contas, eu consegui ter tantos amigos na escola e tirar notas altas. Para piorar, ainda haviam os dias nos quais eu levava meus instrumentos para o colégio e, também, em algum grau, isolava-me socialmente para ficar treinando música nos intervalos.


Hoje, concluo que os vários momentos de introspecção na infância e na adolescência foram os grandes responsáveis para que eu desenvolvesse habilidades artísticas. Às vezes brinco, pensando que desenhava melhor e tocava melhor em outras épocas. Graças às horas de dedicação e experimentação, consegui produzir um estilo pessoal e um traço ou, em outras palavras, a minha identidade visual como artista. No entanto, com o passar dos anos, as tecnologias do mundo evoluíram, o acesso à informação se ampliou, as responsabilidades da vida começaram a aumentar e o tempo diminuiu, além dos próprios interesses de cada fase da vida que surgem e procuram espaço na rotina.


Diante dessas mudanças, emergem novas indagações: os artistas de hoje estão menos autênticos que os “artistas de ontem”? Até onde o gigantesco acervo do Pinterest guia a produção de nossas obras? Até que ponto os trabalhos de colegas, compartilhados em postagens do Instagram, reverberam em nossas próprias produções? O que fazemos com as mil e uma referências que recebemos a todo momento através das plataformas? Existe diferença na criatividade de artistas mais jovens em comparação a artistas que começaram mais cedo? Pior ainda: a falta do tédio, suprida por likes, vídeos de um minuto e fotos, atrapalha os estímulos da criação?


Bem menos do que uma tese elaborada ou, sequer um estudo, trago neste texto simplesmente um relato da minha experiência como artista ao longo dos anos. A arte se torna cada vez mais uma espécie de capital social, que muitas pessoas, empresas e instituições, do dia para a noite, agora buscam consumir, produzir e, a todo custo, transparecer um interesse genuíno por isso. Muito do que era considerado esquisito ou cafona anos atrás torna-se um produto desejável e, por vezes, aesthetic, como dizem no TikTok. E, pode ter certeza, daqui a alguns anos essas mesmas coisas voltarão a ser indesejáveis em alguma medida.


Mesmo em espaços pequenos e aparentemente independentes, ser artista, muitas vezes, não se concentra mais em habilidade, criatividade, sentimento, identidade ou inovação, mas em aparências e likes nas redes sociais: o ego do artista em se desejar e ser desejado.


Eu sempre gostei de passar meio despercebida, ouvindo música no fone, desenhando pelos cantos. Participava de exposições e apresentações, fazia a minha parte e ia embora depois. Hoje, tenho uma relação complexa com o fato de estar me inserindo no cenário autoral de música “alternativa” brasileira e a consequente atenção que venho recebendo por isso que, para uma pessoa até então completamente anônima, parece coisa demais para digerir. Percebo, cada vez mais, que essa atenção é seletiva e perpassa aspectos que vão além da arte em si. O público não quer somente consumir a sua arte, quer consumir você e, obviamente, nesse raciocínio, tudo parece um pouco pior se você for uma mulher.


O avanço tecnológico acontece, mas o mundo ainda é o mesmo e as estruturas sociais se transportam para os espaços online. Bem, a impressão que fica é de que um dos principais palcos que temos são de fato as plataformas, que norteiam as produções em formato, espécie, tema e, até, técnica. Para algumas pessoas, ser artista é performar profundidade em meio ao raso das novas lógicas de consumo. Até onde isso é genuíno?


Não sei se os artistas de hoje são menos autênticos que os “artistas de ontem”. Não posso afirmar algo tão extremo assim, mas as novas gerações, cercadas de trends e acervos de arte online gigantescos parecem ter maior urgência em parecer “diferente” e se destacar em relação aos outros, enquanto têm cada vez menos estímulos reais na criação. O Mark Zuckerberg, o Meta, o Elon Musk e não sei mais quem, tiveram êxito. Passamos, pouco a pouco, mais tempo na tela do celular, consumindo os feed das redes sociais enquanto o nosso cérebro literalmente adoece. A Clara do ensino médio ficava horas direto pintando um quadro, enquanto a Clara pós faculdade tem muita dificuldade de se concentrar por uma hora para fazer um simples desenho. É terrível, o próprio fluxo de ideias parece diminuir a cada ano na minha mente.


Parece paradoxal: em meio a tanta informação, as ideias se esvaem gradativamente. Quem sabe a inteligência artificial, daqui a uns anos, vai se tornar tão complexa que consiga replicar os sentimentos humanos e nós tenhamos dificuldades de saber se uma obra foi produzida por uma pessoa ou uma máquina. Diante da arte cada vez mais padronizada, o trabalho dos robôs se facilita. Mas não quero pensar muito sobre isso, ainda preciso encontrar um jeito de ser criativa o suficiente para fazer a capa do meu EP, que está, finalmente, quase pronto.


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