Uma outra história do chão – conheça o artista mineiro Lucas Matoso
- Clara Campos

- 9 de mar. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: há 6 dias
Talento das artes visuais, o artista explora a poética da subjetividade, dos espaços e dos percursos

No ano passado, deparei-me com as pinturas do artista belo-horizontino Lucas Matoso pelo Instagram. O que poderia ter sido mais um story de mais um conhecido que reposta mais alguma coisa na rede acabou sendo uma grande descoberta da arte visual contemporânea para mim. Primeiro, foi o brilho das cores que me gritou, depois, foram as formas, que pareciam lúdicas de alguma maneira.
Vasculhei o feed da rede social do artista, procurando saber mais sobre seu trabalho e percebi certa consistência em suas obras: desde a paleta de cores vivas e as técnicas utilizadas nos quadros até as possíveis temáticas de seu trabalho. As palavras juntas aos desenhos me chamaram atenção também. “Vaso de porcelana chinesa”, “mentira”, “cadeira”, “perigo nos espreita enquanto dormimos”… O que será que tudo isso pode significar?


Várias outras histórias do mundo
Lucas Matoso é um artista visual natural de Belo Horizonte, nascido em 1997. É graduado em artes visuais pela Escola de Belas Artes da UFMG e já participou de diversas exposições coletivas. Atualmente, Lucas é artista residente da FAAP, na cidade de São Paulo. A série mais recente do pintor se chama “Uma outra história do chão” e conta com oito pinturas óleo sobre telas de 160 cm x 160 cm.
Cada uma das oito pinturas integrantes da nova série tem um título, são eles: História da paz; História da guerra; História do desejo; História do tempo; História do céu; História da vida; História da cidade e História da dor. Os títulos da obra de Lucas são sempre instigantes e convidam o público a se conectar com os quadros, atribuindo sentidos subjetivos a eles, afinal, coisas como a “vida”, a “dor” e o “desejo” são completamente individuais.
Além da formação acadêmica como artista pela UFMG, aspectos da própria história de vida de Lucas interferiram diretamente na criação de “Uma outra história do chão”. O artista destacou o aspecto nômade de sua trajetória pessoal – ele já morou em muitas casas diferentes ao longo da vida, com pessoas diferentes e em locais diferentes. “Isso mexeu muito na minha prática de trabalho também. Quando eu comecei a construí-lo, esse caráter movente da minha personalidade, de estar percorrendo muitos lugares, reconhecendo muitas coisas, sempre caminhando muito. Eu ainda sou uma pessoa que caminha muito”, contou Lucas em entrevista à Wanda.

Segundo Lucas, seu trabalho se concentra em dois eixos: um de percorrer espaços e outro do pensamento gráfico. “Essas duas coisas são os dois componentes fundamentais de qualquer série.” E a mais recente do artista, “Uma outra história do chão”, lida com esses atravessamentos simbólicos que são encontrados no percurso pela cidade. De alguma forma, as várias histórias do mundo parecem ser todas encontradas por aí, nos objetos, nas ruas, nas pessoas… Não é preciso ir muito longe de si.
“Quando nomeia uma coisa, você cria um campo de limitação dos significados que ela pode assumir. Mas você também permite que por meio desse campo de limitação, o significado se amplifique, no sentido de que as pessoas podem se assentar na relação que elas vão ter com aquilo ali.”
O “ser artista”
No quadro Envolvimentos da edição extra da Wanda, temos perguntado aos artistas convidados o que é o “ser artista” para cada um. A variedade de respostas é interessante. Com Lucas Matoso não foi diferente: segundo o pintor, existem alguns elementos que definem o artista, como a percepção estranha do mundo, que é uma forma atenta de lidar com o entorno e perceber coisas que em geral passam despercebidas pela maioria das pessoas. E, a partir dessa percepção mais sensível do mundo, o artista estabelece um sistema próprio para lidar com o que o cerca.
“Esse entorno, ele pode ter a ver com uma caracterização mais subjetiva ou mais objetiva, tem artistas que olham muito para o mundo, tem artistas que olham muito para si mesmos. E, para mim, tem a ver com construir uma linguagem, construir uma forma de discursar, ou de intervir, ou de atritar, ou de escrever ou de inventar esse todo, que ou nos circunda ou nos habita.”




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