“MAGICLEOMIXTAPE (quando vê, já foi)” costura o tempo e o espaço
- Antônio Belmonte

- 12 de jan. de 2025
- 5 min de leitura

Há uns dois anos, internet afora, deparei-me com os sons de batata boy. Seja na produção ou na composição e execução das músicas. Na época, lembro de instantaneamente fazer caretas de júbilo e afins ao ouvir as harmonias e ritmos nos seus sons. Algo que senti desde o momento que vim a conhecer seu som foi que ele trazia profundidade nas imagens e sensações formadas.
Leonardo Acioli, batata boy, é produtor, compositor, cantor e multi-instrumentista de Maceió, Alagoas. Vale mencionar que ele foi vencedor, em 2023, da Categoria Especial - Lançamento Eletrônico do Prêmio da Música Brasileira com o disco "Entre Cidades", realizado com o produtor paulista Garbela. Além disso, batata tem EPs lançados desde 2017 e colaborou com Bruno Berle, nos discos "No Reino dos Afetos" (2022) e "No Reino dos Afetos" 2 (2024).
O apreço pelo som e seus desdobramentos é algo que me parece ser imperativo desde o início até o lançamento que motiva esse texto. Sua habilidade de síntese é formidável: colocar uma sensação ou uma imagem vívida e complexa em um beat. Dessa época lembro-me de ouvir "love message" inúmeras vezes. O que dá gosto é ver que ele manteve a chama acesa e, neste fim de ano, o mago em questão soltou seu encantamento.
Recentemente, batata boy lançou "MAGICLEOMIXTAPE (quando vê já foi)", seu primeiro álbum solo. Com doze faixas, o disco conta com muitas participações, que tornam o disco ainda mais repleto de sensações e complexidades.
O novo álbum responde à demanda de rapidez nas coisas e nos seus 29 — quase 30 — minutos é absolutamente imenso, sem pretensões de pequenez. "MAGICLEOMIXTAPE (quando vê já foi)" expõe isso com muita tranquilidade. Na contramão do isolamento, batata reúne mais de dez outros artistas; e suponho que isso seja mais impactante do que somente a pluralidade literal que vários artistas trazem para um projeto. Ainda que unificar-se com artistas Brasil ou mundo afora não seja particularmente fácil, aqui isso se concretiza.
Mixtape adentro: algumas músicas exploram sons que me remetem a leveza, a uma natureza aérea e onírica. A faixa que abre o disco, novas rotinas, com participação de Vitor Milagres, traz um tom meditativo — mas meditação em movimento, definitivamente, cheia de movimento. Uma dança em transe, um pássaro que repousa enérgico contra o vento para um mergulho para o terreno; imperatividade em vencer. Já todas as metas tem um beat inquietante; a faixa conta com a participação de Ico dos Anjos, no beat, e L444U, que carrega as melodias nos vocais que embalsamam essa transição pro terreno.
As faixas a seguir me fazem pensar em algo que remete à crônica; uma perspectiva do "prosaico. pode ligar (foi bom com vc)" é absolutamente visceral, seja pela levada de yung vegan; os vocais que crescem e somem de Ana Frango Elétrico sobrevoando o tempo todo ou pelo beat denso e acelerado que dão palco aos versos que nos dizem sobre assaltar o céu, regras que amarram e cansam, velocidade, entre outras imagens coladas que formam essa paisagem contemporânea hiperestimulante.
Ainda no terreno, certeza de te amar suaviza a intensidade da faixa anterior e inaugura menções ao amor de forma mais direta; tal sentimento que aqui se mostra como algo quase palpável, mas singelo e diáfano que se sobrepõe a quase tudo.
A seguir, "technoroação (BIG LUV)". Essa é uma música alucinógena e parece mesclar sonho e realidade, Jadsa nos versos pinta esse quadro de uma esquina que quase se concretiza e ao mesmo tempo evapora diante dos nossos olhos.
Já tudo pra agora tem um beat já mais sinuoso e aconchegante, olhos entrelaçados ao longe, ao contrário da velocidade pulsante de outras faixas anteriores. Os vocais de "snowfuks" abrem a faixa com melodias lindíssimas e que se mantêm ao lado dos vocais de Bruno Berle que trova essa sensação de fazer voltar o que era antes; o ser que nos fizeram ser, mas que rui em pensamentos que não se fazem entender; a dúvida do que fazer meio à tanta coisa que ocupa a vida e não nos faz viver. No fim, os vocais engrandecem e incendeiam nas demandas de ter tudo pra agora e também na conclusão que só se entende ao viver. Essa é uma faixa bem simbólica pra esse conjunto que se forma. Seja em aspectos da estética e linguagem ou pelos significados e imagens que transcendem a sistematização desse deguste auditivo.
Ainda sobre sensação; sentimento: agora com Luiza de Alexandre, ori e Virgínia Guimarães, quero te lamber faz entremear-se no manto de sensações que nos cobre. Os vocais, assim como em todas as faixas do álbum, carregam complexidade e tons que se completam. E aqui, aliás, está o beat que mais me viciou no disco, absolutamente hipnotizante!
"domingão, maceió" é uma faixa vivaz e colorida no álbum. Na voz de Saci sobre o beat feito em Maceió, forma-se uma imagem fortemente brasileira de um sol pra cada cabeça um sol e carrega também esse teor meditativo em certos versos como “tudo que vai volta de alguma forma / quem planta, colhe / é um caminho sem volta”; “paciência, acredito em calma, mas em carma não”.
"i wanna get to say love" nos abduz desse terreno repleto de cores, sensações e dúvida, trazendo-nos para esse ambiente mais aéreo. Na voz de dadá Joãozinho vibra o amor sem pretensões ou regras que flutua música adentro com um timbre animal no sintetizador que incorpora o beat. A seguir, tudo isso tudo (jogadora nata), Luiza de Alexandre retorna envolta num beat já mais sereno, como luzes da cidade no horizonte noturno; o trecho em os versos se viram pro rap quebra essa tranquilidade e logo volta pra essa frequência de admiração sinestésica e reflexiva do refrão.
Penúltima faixa," a vida muito mais", com a participação de alici torna rarefeito esse espaço que até então era vívido e concreto na nossa frente. Os vocais ecoantes e rarefeitos vão dissolvendo toda essa imensidão retratada até então. E por fim love is blind traz uma harmonia e ritmo de despedida, que nos coloca pra fora do feitiço. Mas você acabará voltando a fita toda mil vezes.
O disco de batata une o céu e o sonho ao real e terreno; entremeia no surreal as fibras do prosaico. Além de ser uma constatação em tempos de individualismos e tentativas de suprimir coletividades; um projeto solo, mas repleto de vozes e olhares. É um baita disco que explora sonoridades que quebram barreiras e limites, seja no seu teor lírico ou estético. Viva batata boy e as possibilidades que em uníssono podemos formar!
* Antônio é musicista e poeta; bacharel em Português com Menor em Línguas Modernas – Alemão pela Universidade de Coimbra. Atualmente, escreve sobre shows da cena independente/alternativa paulistana e prepara seu primeiro EP sob o nome Maruki.



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