Meu safe space chamado Estratégias Narrativas
- Maria Cecília Couto Ferreira

- 28 de jun.
- 3 min de leitura

Existe um estereótipo muito comum da pessoa que escreve: alguém solitário, noturno e que está sempre sozinho observando o que acontece ao seu redor sem muito participar, apenas registrando com o olhar e as palavras.
Por muito tempo eu acreditei que a escrita era um processo individual e solitário e que quem saia desse casúlo e vivia da escrita (monetariamente) era quem tinha sorte, contatos ou qualquer outro tipo de circunstância que pudesse favorecer a escrita criativa ou literária.
Por isso alguém como eu, sem parentes importantes e com apenas um diploma de um curso que não exige diploma no bolso, não conquistaria esse feito, a não ser que talvez por alguma brecha do mercado de trabalho.
Assim, eu comecei a trabalhar com marketing de conteúdo e a me reconectar com aquele vontade primária de escrever em vários mini cursos de escrita criativa. Esses espaços me abriram os olhos para a escrita compartilhada, para conhecer outros autores, para ler mais e para compartilhar o que escrevo.
Numa dessas aventuranças em busca de cursos, eu conheci o espaço do Estratégias Narrativas que há 10 anos faz da escrita um espaço coletivo, seguro e claro estratégico para quem busca escrever, ler, escutar e ser lido. O Estratégias Narrativas é gerido pela Laura Cohen Rabelo, escritora de Belo Horizonte.
Depois de um ano participando regularmente dos encontros semanais, de criar uma rotina de escrita, leitura, ler em voz alta e compartilhar dilemas da vontade e da coragem de escrever e ser lido, nos ateliês eu vi a possibilidade um fazer coletivo e a construção de uma comunidade que vai muito além das duas horas semanais em que passamos juntes.
É interessante que quando se pensa em cultura, muitas vezes vem à mente logo algum tipo de produção visual e às vezes a literatura, talvez um dos mais antigos produtos culturais e ainda hoje um dos mais baratos de se fazer fica esquecida, fica colocada naquele lugar dos cânones, cuja maioria eu nunca nem li. Esse fazer literário contemporâneo em parceria com escrita, leitura e escuta me revelaram que escrever criativamente vai muito além de publicações, prêmios e alcance de resultados mercadológicos com essa escrita. No ateliê eu vivi pela primeira vez o prazer de escrever por escrever, sem uma finalidade específica (ainda que em algum momento eu ainda pense em publicar) e ao mesmo tempo poder acompanhar o processo e ler tantas pessoas que estavam em sintonia comigo e muitas delas publicadas.
Eu percebi que sim existe um grande mercado editorial em São Paulo, mas também existe isso aqui. Existem editoras e espaços independentes lutando para colocar essa literatura na rua, que é mineira, que é de BH, que reflete a multiplicidade do nosso estado e até mesmo dos interesses que temos para além de estereótipos.
A literatura que muitas vezes reforça estereótipos às vezes os quebra, primeiro na nossa cabeça quando lemos e depois para além de nós mesmos quando falamos e escutamos. E às vezes também nos coloca diante de mais um lugar comum da cultura belo-horizontina como o Edifício Maletta, onde se reunia o Clube da Esquina e onde me encontro com meu Clube de Segunda.
Em um exercício criativo tive que escrever na pele de Teodora Moreira, uma colega, ceramista e escritora, autora do livro de poemas Livro das Quedas. Assim ficou o poema:
teodora,
a vida é um morango
ora daqueles grandes
vermelhos
e suculentos
ora pequeninos e azedos
às vezes muito maduros
meio amassados
tem também
os brancos
e tristes
sem gosto, e
é claro,
que também existem
os mofados
escondidos
no fundo da caixa
debaixo da beleza
dos vermelhos
como corações
decepcionantes
como quando
tentamos
viver um poliamor
Na Feira Canastra os participantes do Ateliê levaram suas produções, livros e zines. Contribui com a minha Dor de Cotovelo, criada em parceria com meu amigo João Guisard, designer.




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