Mikey 17 pode não ser o melhor filme de Bong Joon Ho, mas está longe de ser ruim
- Júlia Ennes

- 23 de mar. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 29 de jun.
Estrelado por Robert Pattinson, longa de ficção científica é divertido, crítico e conta com atuações e efeitos visuais excelentes

Chegou aos cinemas Mickey 17, o mais recente filme do aclamado cineasta sul-coreano Bong Joon Ho. Estrelado por Robert Pattinson, a trama se passa em um futuro próximo, no qual a humanidade busca colonizar planetas distantes para escapar de uma Terra em colapso. Se, à primeira vista, o longa parece ser uma ficção científica engraçadinha, logo somos confrontados com uma sátira sobre política, relações humanas e a ideia de progresso – e é isso que esperamos do diretor de Parasita (2019).
Adaptada do livro Mickey 7, de Edward Ashton, a história foca em Mickey Barnes (Robert Pattinson), um jovem endividado com um agiota, que decide se candidatar a um emprego precário sem ler o contrato que detalha a função. O trabalho em questão faz parte da expedição colonizadora de um planeta distante, comandada pelo empresário e político fracassado Kenneth Marshall (Mark Ruffalo).
Assim, sem entender direito onde se meteu, Mickey se torna um Descartável, um posto que consiste basicamente em ser exposto a situações perigosas ou submetido a testes para garantir o sucesso da expedição. E morrer. Morrer repetidas vezes e ser "impresso" de volta à vida.
Sim, impresso – literalmente. Cada vez que Mickey morre, seu material genético e memórias passam por uma máquina que o traz de volta à vida. Na cena em que vemos o processo pela primeira vez, entendemos que o uso desse termo é o mais adequado: Mickey sai da máquina que funciona, e até engasga, igual uma impressora de papel. Todo esse processo de impressão tem um tom cômico, mas não precisa pensar muito pra entender que coisa boa não vem por aí.
Mickey Barnes, então, se torna apenas Mickey seguido do número correspondente à versão impressa (Mickey 2, 3, 4, e por aí vai…). Ele é agora um corpo 100% aproveitado – e reaproveitado – para garantir o lucro e uma ideia de suposto progresso.
O grande conflito começa quando, após sofrer muito em uma missão, Mickey 17 é dado como morto — sem ter morrido — e, quando volta à base, se depara com a versão 18 já impressa. Além de Duplicados serem uma infração às leis, a décima oitava versão de Mickey é também muito mais maliciosa, violenta e consciente da situação absurda em que eles vivem.
Em Mickey 17 vemos mais uma vez o tom crítico e a diferença de classes como ponto central da narrativa, que marcam a obra de Bong Joon Ho. Ainda mais sarcástico que nas suas produções anteriores, o diretor e roteirista criou uma trama de ficção científica para discutir as relações humanas (e o que é ser humano) e a política – e a estupidez dos “grandes líderes visionários” no poder. A principal diferença é que desta vez, Bong Joon Ho nos deu um final mais esperançoso.
No papel do protagonista, Robert Pattinson está excelente. Desde o início da trama, o ator entrega uma performance sólida, mas atinge seu ápice quando temos Mickey 17 e 18 juntos. Pattinson consegue criar características completamente diferentes para cada versão do personagem.
Como cada versão tem uma personalidade distinta, vemos Pattinson com posturas, expressões, gestos e até mesmo voz diferentes para cada um deles. A diferença é tão grande que conseguimos identificar quem é quem, mesmo quando estão vestidos de forma idêntica.
Este filme é mais uma prova de que Pattinson é um dos atores mais interessantes da atualidade. É impressionante como ele se reinventa a cada trabalho – o que é basicamente o trabalho de um bom ator, o que ele, de fato, é.
Já Mark Ruffalo interpreta um Frankenstein de todos os bilionários/político/bilionários-que-tentaram-carreira-política que conhecemos na mídia mundial. Desde a postura ao discurso, até a caracterização física, com um bronzeado artificial e lentes nos dentes. Desde que saiu do universo Marvel, o ator parece ter decidido dar um giro de 180 graus e fazer só os papeis mais estranhos e exagerados possíveis. Dá pra ver como ele se diverte com a caricatice que imprime no personagem e o resultado é muito bom.
Porém, no comando da expedição espacial colonizadora, quem mais me chamou a atenção foi Toni Collette, que interpreta Ylfa, esposa do comandante Kenneth Marshall. A personagem carrega uma energia meio Cruella de Vil ou Izma, de A Nova Onda do Imperador, o que cai muito bem no papel de esposa sociopata por trás de um bilionário com sede delirante de poder e aceitação. Outros destaques são Steven Yeun (que poderia ter aparecido até mais) e Naomi Ackie.
Mickey 17 pode não ser o melhor filme de Bong Joon Ho, mas é um bom filme, que diverte e transpira o espírito da época em que vivemos. Além de um roteiro interessante, a produção entrega atuações excelentes e efeitos visuais impecáveis. Se não fosse pela grande expectativa que ter Parasita no currículo do cineasta causa, talvez Mickey 17 fosse melhor recebido pelo público e pela crítica.
Nota: 4/5



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