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O dia que se planta não é o dia que se colhe

  • Foto do escritor: Bruna Batista
    Bruna Batista
  • 26 de abr.
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

Desde 2018, a Arado pesquisa o imaginário rural do Brasil. Em 2026, o trabalho elaborado para um calendário chamou a atenção de Anitta, que convidou o estúdio para participar da criação visual de “EQUILIBRIVM”


Ilustração vintage com sol e lua acima de um templo; texto EQUILIBRIVM ANITTA em fundo amarelo e clima místico.
Poster EQUILIBRIVM, feito pela Arado para Anitta. Divulgação.

Cruzou sete encruzilhadas só pra me encontrar

Me deu sete saias pra me impressionar

Pulou sete ondas no dia primeiro

Já é fevereiro, e eu não vou voltar


Desgraça - Anitta


Os versos da música de Anitta, que abre seu mais recente álbum de estúdio, EQUILIBRIVM, usam uma sequência de símbolos conhecidos no Brasil. As saias, a encruzilhada, as ondas no dia primeiro: todos atravessados pelo número sete. São também sete os mares de Yemanjá, e foi 70 vezes 7 o número de vezes que Jesus disse a Pedro que se deve perdoar um irmão que peca contra nós.


Em 2026, a Arado lançou a 7ª edição de seu calendário, que acabou chegando às mãos da cantora como presente. A partir dele, veio o convite para desenvolver as capas de singles, o calendário de divulgação e os lyric vídeos de EQUILIBRIVM.


Nada passa pelos Anitters


Logo no começo da divulgação a relação com a Arado já foi percebida pelos fãs. No X (falecido Twitter), um deles comentou que as artes de divulgação do álbum lembravam o calendário da Arado. A própria cantora respondeu que tinha recebido o item de presente e decidiu chamar o estúdio para o projeto.


Captura do X com post de Anitta sobre calendário EQUILIBRIVM, capa de tarot Ritos Mágicos Brasileiros e arte colorida.
Comentário da Anitta no xwitter.

“A equipe dela entrou em contato comigo”, conta Luis Matuto, sócio e diretor criativo da Arado. “Ela tinha gostado muito do calendário e fazia sentido a gente estar dentro do álbum.”

A Arado é um instituto de pesquisa e estúdio de design que desde 2018 se dedica a investigar o imaginário rural brasileiro e traduzi-lo em linguagem visual. Produzido desde 2020, a cada ano, o calendário traz um tema específico sempre guiado por um tema ligado ao imaginário popular. Em 2025, o foco foi “Festas populares do Brasil”. Em 2026, “Ritos e rituais mágicos do Brasil”.


A construção do material para a Anitta precisou ser rápida. O prazo era de 15 dias, com trocas diárias entre as equipes, de manhã e à noite. “Mas, da minha parte, com muita segurança. O diferencial do trabalho da Arado é que a gente joga em casa. Eu não gosto de futebol mas é o melhor comparativo: seria como se o América Mineiro jogasse em casa ganhando a Champions League.”


O briefing era: seguir a ideia do calendário. As artes precisavam dialogar com cada música, às vezes de forma mais específica, às vezes com mais liberdade. “Mas a gente teve espaço para intervir em muitos momentos”, diz Luis. A base foi feita à mão, mas a maior parte do material foi produzida no digital, também por causa do prazo. As animações ficaram por conta da equipe da própria Anitta.



O dia que se planta não é o dia que se colhe


Luis Fernando Tavares dos Reis nasceu em Alfenas, no interior de Minas Gerais, e se mudou para Belo Horizonte aos 18 anos. “Cheguei bem capiau”, lembra. O apelido Luis Matuto veio daí. Formado em Design pela UEMG em 2012, ele passou por um período de insatisfação profissional. “Eu não entendia por que estava insatisfeito como artista e designer. Sentia que faltava significado.”


A resposta veio com um retorno à origem. Luis decidiu passar um tempo na roça com o tio, na cidade natal. Nesse período, começou a desenhar, fotografar e anotar cenas do cotidiano. “Eu vi a potência disso”, conta. Aos poucos, percebeu que não precisava buscar um tema fora. “Em vez de procurar um tema, percebi que ele já estava dentro de mim.”


Desse processo surgiu uma linguagem baseada em elementos simples da vida rural, construída a partir da própria vivência. “É um tema com o qual tenho intimidade. Isso mudou tudo.”


Quando entrou para a Arado, em 2020, o projeto ainda era pequeno. A empresa havia sido fundada em 2018 por Bruno Brito, em Queluz, no interior de São Paulo. Luis levou também essa pesquisa que já vinha desenvolvendo. A partir de 2022, o trabalho começou a ganhar mais visibilidade. “A gente entrou num circuito de premiações e começamos a receber reconhecimento. O dia que se planta não é o dia que se colhe. A gente foi plantando e está colhendo até hoje”, diz Luis.


Essa base de pesquisa também explica a aproximação com o trabalho de Anitta. A conexão não se deu apenas pela estética, mas pelo conteúdo. “O calendário fala de defumações, banhos, proteção popular, proteção à lavoura, essa mística popular”, explica o diretor criativo. “Relacionou questões estéticas, de conteúdo e de pesquisa. Não foi só porque ela achou bonito. Foi porque fez sentido.”


O universo retratado parte de referências muito nossas: “as mandingas fazem parte do imaginário brasileiro. Esse misticismo entre o sagrado e o profano está no nosso DNA”, afirma. “Até o jogo do bicho é baseado em sonhos.”


No interior, essa dimensão se torna ainda mais evidente. “São as pequenas coisas do cotidiano. Uma espada de São Jorge, uma arruda plantada. Isso atravessa todo mundo.”


Para Luis, esse mesmo repertório aparece no trabalho da cantora. “É isso que a Anitta faz. Ela finca o pé e assume isso, e coloca tudo ainda mais explícito por causa da religião dela. Por mais que ela seja uma diva pop mundial, ela decide falar dessas coisas que estão muito mais aqui no nosso íntimo, que são aqui da terra, do acreditar do Brasil.”


Colagem com quadro Dona Janaina, pôster de aves e vaso com buquê colorido sobre mesa branca; clima tranquilo.
Quadros da Arado decorando a casa dos nossos amigos. Agradecimentos à Arianne, Pedro e Henrique pelas fotos <3

A pesquisa do imaginário rural brasileiro


Hoje, a Arado funciona com duas frentes. O estúdio desenvolve projetos de design e produtos. O instituto se dedica à pesquisa e à divulgação do imaginário rural.


A marca tem uma loja online e duas unidades físicas: uma em Paraty e outra no Mercado Central, em Belo Horizonte. A escolha do local foi pensada. O espaço recebe cerca de 1,3 milhão de pessoas por mês e tem quase 90 anos de história. “Os outros mercados são legais, mas nenhum é o Mercado Central”, comenta Luis.


O instituto reúne um acervo de livros e publicações raras, alguns com mais de 100 anos. O desafio agora é organizar e digitalizar esse material. “A gente está preparando uma plataforma para publicar um lote disso no próximo ano.”


Colagem de seis capas de livros em português, com títulos como Contrastes e Confrontos, Medicina Rústica e Caminhos Antigos.
Acervo Arado está em fase de digitalização, catalogação e organização.

Entre os projetos está a Enciclopédia Rural Brasileira, uma coletânea de verbetes ilustrados à mão que busca abarcar uma ampla gama de objetos, animais, plantas, gestos, saberes e fazeres da cultura popular brasileira. Segundo o instituto, o principal objetivo é catalogar e preservar a memória popular brasileira, “signos que sofrem o risco de desaparecer com a modernização em curso”.


“Hoje estamos há seis anos fazendo isso. E quando forem 12? 21? O instituto é um projeto de longo prazo, é o nosso legado”, avalia Luis.


Um futuro como folclorista gráfico


A tradição de Cosme e Damião aparece como referência recorrente, assim como a figura de São Jorge, que Luis passou a observar com mais atenção em viagens ao Rio de Janeiro. Em suas releituras, ele se afasta da iconografia tradicional. “Não é um centurião romano, é um homem pardo”, explica.


Pôster vintage de São Jorge a cavalo vencendo um dragão, com texto Salve Jorge e moldura ornamental vermelha.
Cartaz São Jorge. Arado (divulgação)

A escolha de representar diferentes tonalidades de pele acompanha a própria formação cultural do país, marcada por influências indígenas, africanas e europeias, e amplia o conjunto de imagens que costumam circular nesses contextos.


Nesse processo, o design funciona como meio de dar forma à pesquisa. É o que permite transformar referências, registros e observações em imagens, livros e outros materiais. Luis se aproxima da ideia de um “folclorista gráfico”. Ele explica que folcloristas eram pesquisadores, leigos ou não, que documentavam festejos populares, artefatos e tecnologias. “O monjolo é uma tecnologia, né? Alguém tinha que analisar e descrever como ele funcionava.”


Ele cita trabalhos como o de Ariano Suassuna, em Ferros do Cariri, e de Percy Lau, que percorreu o Brasil registrando paisagens e costumes. “Os folcloristas não eram necessariamente antropólogos, mas tiveram um papel fundamental em documentar e guardar relatos”, afirma.


Hoje, esse esforço também se organiza em projetos como a Enciclopédia Rural Brasileira e na formação de um acervo que reúne publicações antigas e materiais raros. O desafio agora é estruturar, digitalizar e tornar esse conteúdo acessível.


“Já tem muita coisa. Agora precisamos principalmente conseguir organizar isso”, diz. A expectativa é começar a disponibilizar parte do material em uma plataforma no próximo ano.


Dois homens seguram cartaz com galo e a palavra ARADO; ao fundo, bandeira branca com Libertas quae sera tamen.
Ilustração Digital por Laís Fidélis

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