Sem diálogos, ‘IMO’ chega aos cinemas – conheça o universo cinematográfico de Bruna Schelb
- Júlia Ennes

- 6 de abr. de 2025
- 6 min de leitura
Cineasta da Zona da Mata mineira usa surrealismo para retratar opressão no cotidiano das mulheres

O longa-metragem IMO, escrito e dirigido pela mineira Bruna Schelb, estreou nos cinemas em março, distribuído pela Descoloniza Filmes. A cineasta usa metáforas e simbolismos, e se inspira em experiências próprias, para propor uma reflexão sobre o cotidiano e a opressão das mulheres.
Dividido em três partes, o filme acompanha três mulheres que revisitam suas memórias e transitam entre a realidade e o surreal. Em IMO, a violência é alegórica. As personagens interagem com o ambiente à volta delas, com o próprio corpo e fantasiam reações possíveis a situações que viveram. Elas estão enclausuradas pelo ambiente doméstico, pela rotina, pelas memórias, pelas mãos de outros e até pelo corpo que habitam. O elenco é composto por Mc Xuxu, Helena Frade e Giovanna Tintori.
Em entrevista à revista Wanda, Bruna explica que a decisão de retratar a opressão feminina por meio de alegorias e metáforas foi movida pelo desejo de criar imagens que ela gostaria de ver.
“A gente vê muito filme na História do cinema com mulher apanhando e mulher morrendo e, de fato, essas coisas acontecem, mas eu não queria criar mais imagens assim”, explica.
IMO é dedicado às mulheres da família de Bruna. A cineasta conta que, ao escrever o roteiro, suas duas irmãs mais novas ainda eram crianças e ela se viu pensando que, infelizmente, era possível que elas passassem por situações de violência semelhantes às que ela mesma viveu e que são retratadas no longa. “O filme era uma maneira de eu dizer para elas que se isso acontecesse, elas não estariam sozinhas”, afirma.

Bruna conta que pensou também na mãe e na avó. “Minha mãe assistiu o filme e ficou em silêncio depois, ela ficou muito impactada com as imagens. Eu queria fazer um filme que tivesse essas características das alegorias, das metáforas, dos símbolos, mas que ainda fosse possível dela entender, que ainda fosse possível de uma pessoa como ela, que não tem contato direto com arte, quadros e filmes clássicos, sentir”.
Desde seu lançamento na 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro de 2018 – onde foi um dos destaques da seção Aurora –, até as salas de cinema, IMO percorreu um longo caminho. Produzido em 2018, quando Bruna ainda estava na faculdade de Cinema e Audiovisual, na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o filme contou com parceria de colegas de turma, equipamentos emprestados e um orçamento de pouco mais de R$1.500.
A avó de Bruna, inclusive, chegou a “inteirar” R$100 para a produção. Infelizmente, a sra. Elizabeth Schelb não conseguiu ver IMO finalizado. Ela sofreu um AVC no dia que Bruna estava finalizando a montagem do filme, e faleceu cinco dias depois da estreia em Tiradentes.
O filme cobra presença
Sem diálogos, a sonoplastia e a imagem de IMO tomam conta e carregam o espectador para um mundo onírico, onde o tempo se dilata e a observação é o que resta.
O filme começa com o som direto da natureza – o canto dos pássaros ao fundo –, mas, à medida que a história se desenvolve, outros elementos sonoros entram em cena: o telefone tocando, a água, o vozerio de homens. E, em uma crescente, o que antes parecia quase paradisíaco toma conta do espaço e nos deixa comprimidos, desconfortáveis.
IMO é claramente um Primeiro Longa de uma diretora, que queria experimentar. Bruna conta que a decisão de não incluir diálogos foi um exercício de ser radical. “A ausência de diálogo cobra muito a atenção da pessoa que está assistindo, ainda mais hoje, que a gente está acostumado com vídeos curtos, muita informação. Cobra não só a presença, mas uma interpretação de todas as coisas que estão acontecendo: os sons do ambiente, as ações das personagens, todo o trabalho da direção de arte”, analisa. “Desdobra o filme numa experiência que tem muito a ver com os outros sentidos, ainda que exista som no filme”.
A narrativa nos convida a submergir em um universo onírico e somos cativados pela beleza das imagens. Suas cenas parecem verdadeiras pinturas em movimento. Os elementos cênicos e o jogo de luz e sombra remetem a artistas como Remedios Varo, Edward Hopper, Caravaggio – referências assumidas pela produção. “São pinturas que dizem muito da luz do ambiente, como ela cria uma atmosfera. A gente tentou não replicar isso, mas interpretar e colocar nas nossas imagens também”, explica.
Além disso, a narrativa alegórica e muda, abrem um leque de possibilidades interpretativas. Segundo a diretora e roteirista, desde o lançamento em Tiradentes, ela tem ouvido do público diferentes análises e sentimentos despertados pelo filme. “Isso é super legal porque o filme, depois que está feito e está numa tela, ele não é mais da pessoa que criou, é da que está assistindo. Então, cada um ter essas interpretações dos símbolos é uma das coisas mais ricas que pode acontecer”, diz.
O universo cinematográfico de Bruna Schelb
Além de IMO, Bruna assina outros 15 curtas-metragens. Natural de Cataguases, cidade na Zona da Mata mineira, a cineasta leva para seus filmes paisagens, gírias, costumes conhecidos por quem é da região.

As três histórias do longa, assim como outras obras de Bruna, se passam em cenários rurais, lugares que fazem parte do imaginário coletivo sobre chácaras e fazendas não só de Minas Gerais, mas de todo o Brasil. O ambiente, assim, ajuda a tornar as histórias atemporais e possíveis de acontecer em “qualquer lugar” do país. Pergunto a Bruna se isso é intencional ou se foi uma questão prática de locação. Mais uma vez, a cineasta recorre às suas memórias e explica que é uma mistura do natural com o deliberado.
“Isso tem muito a ver com a minha infância. Tem um outro filme meu que está rodando agora em festival, que chama Déia e Dete, que são duas irmãs numa chácara. E essa é a maneira como eu cresci, sabe?”, explica. “Ter aberto a minha produtora em Cataguases, estar sempre voltando para esse lugar da roça… isso é sim uma coisa intencional, porque eu acredito que essas histórias que estão fora dos grandes centros são muito ricas e merecem ser contadas, registradas. E ao mesmo tempo, vai para esse lugar, que você falou, das histórias serem atemporais ou de qualquer lugar. Tento fazer filmes que as pessoas possam assistir e falar “a lá! Podia ser eu ali!”, analisa.

Como alguém que também é de Cataguases e que sabe o que é ser imediatamente associada ao Humberto Mauro ou ao Movimento Modernista – ícones que marcaram a produção artística da cidade no passado – quando alguém descobre que sou de lá, pergunto a Bruna se ela tem esses nomes como referência e até que ponto acha que Cataguases está presente em sua arte. Ela ri e diz que acha minha pergunta “muito de uma pessoa que é de Cataguases também” – e eu rio de volta, levando como um elogio: a gente sabe o que é ser cataguasense.
“Eu queria ter feito o IMO lá. Eu queria ter feito IMO como um filme urbano e a primeira cena seria ali na Avenida Humberto Mauro. Mas a gente não conseguiu locação”, revela.
Apesar de – nas palavras dela – “reverenciar” a história de Cataguases, Bruna diz não pensar muito sobre as influências diretas que o passado artístico da cidade causa na obra dela e também não tem a pretensão de se comparar com “gente grande”, como Humberto Mauro.
Na verdade, para ela, a atmosfera artística do lugar que nasceu sempre pareceu algo natural. “Eu achava que todas as cidades do Brasil eram assim, que todo mundo tinha um Niemeyer na praça, tá ligado?”, brinca. “É claro que isso é algo que me influencia, mas eu não consigo te responder como exatamente. Eu acho que sou só mais uma pessoa de Cataguases que está no meio artístico”.
Parceria na vida e na arte
Além das pinturas, do surrealismo e do ser cataguasense, a parceria com Luis Bocchino marca o universo cinematográfico de Bruna Schelb. Juntos desde a faculdade, Bocchino é sócio de Bruna na produtora Filmes do Mato e diretor de fotografia de IMO, assim como da maioria dos filmes dela.
“Ele é um artista. O que ele traz, não só complementa, mas aumenta a minha visão e, hoje em dia, eu não vejo os filmes como os meus, mas como nossos”, afirma Bruna. “Sem a sensibilidade, as referências e o conhecimento técnico dele, eu acredito que as minhas criações seriam muito diferentes”, conclui.
O fruto mais recente da parceria entre Bruna e Luis é Verde (2024). O documentário conta a história da Revista Verde, um periódico mensal de arte e cultura criado em Cataguases e veiculado entre 1927 e 1929 pelo Movimento Verde, que revolucionou a literatura da época, com textos que iam de reflexões teóricas a poesias e xilogravuras.
Bruna Schelb indica!
Para finalizar, faço a pergunta que já virou tradição aqui na Wanda: se pudesse indicar um artista que todos deveriam conhecer, quem seria? E a resposta da cineasta, que estreou recentemente nos cinemas com um filme sobre o cotidiano e a opressão das mulheres, não decepciona. “Chantal Akerman. O trabalho dela tem uma sensibilidade especial com o cotidiano feminino e a relação que existe entre os espaços e as sensações”, indica.



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