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O TikTok não é neutro: Será mesmo que precisamos de “botox preventivo” aos 25 anos de idade?

  • Foto do escritor: Clara Campos
    Clara Campos
  • 20 de abr. de 2025
  • 4 min de leitura

(E outras porcarias que o patriarcado quer nos vender, agora via internet)


Ilustração abstrata de uma pessoa com o rosto marcado para recorte e sendo injetada por uma seringa.  O rosto em moldura de celular e fundo azul.
Ilustração por Laís Fidelis.

No meio da faculdade de jornalismo na UFMG, nós tínhamos uma matéria obrigatória sobre “plataformas”. Da primeira até a última aula, o professor falava sobre como as redes sociais, sites e aplicativos eram territórios completamente parciais, ainda que se vendessem ao grande público como meros meios de comunicação isentos. A noção de que as plataformas servem apenas de intermédio entre a vastidão da internet e o usuário é mais comum do que deveria ser - e um tanto nociva.


Disfarçadas por interfaces de design prático e divertido, as grandes empresas de tecnologia, do Vale do Silício à Rússia à China, atualmente são donas de uma das maiores preciosidades do mundo humano: o tempo que, neste caso, nós passamos parte dele, todos os dias, mexendo nos feeds das redes. E, nessas horas, a famosa frase “se for de graça, o produto é você” é extremamente certeira.


A propaganda é o novo normal

Na televisão, as propagandas comerciais costumavam ser muito bem delimitadas, com o famoso intervalo da propaganda. Mas, com o passar das décadas, o comercial evoluiu para dentro dos produtos midiáticos, aparecendo de relance, ou nem tão de relance assim, nos filmes, nas novelas e nas séries, com alguma personagem bebendo uma Coca-Cola ou dirigindo algum carro novo no meio da cena, por exemplo.


No celular não é diferente: em aplicativos gratuitos, como as redes sociais do Instagram, do X e do TikTok, as propagandas comerciais e ideológicas cercam os usuários a todo tempo. As interfaces dos app, até então neutras, começam a ser tomadas por anúncios de produtos e sugestões de publicações que você nunca nem pediu.


Até onde opera o domínio das empresas de tecnologia na vida cotidiana de grande parcela da nossa população? Mais especificamente: estamos, na verdade, consumindo produtos ideológicos dos grandes chefes dessas empresas a todo momento? Será mesmo que os aplicativos são neutros se os donos deles são o Elon Musk e o Mark Zuckerberg?


Por mais que não seja segredo para ninguém que grande parte dos donos das grandes redes sociais sejam figuras importantes da extrema-direita mundial (acho que não deu tempo de se esquecer da horripilante posse de Donald Trump nos Estados Unidos), será que de fato paramos para pensar nisso? Não é um pouco óbvio pensar na reprodução online das estruturas sociais offline ou dá para esquecer disso enquanto navegamos no belíssimo e personalizado feed do Pinterest?


Misoginia ainda é o produto da vez!

Seguindo a premissa de que o sistema social da vida “real” é replicado na internet, é claro que nós mulheres seríamos grandes alvos dos discursos que são espalhados por e nessas plataformas. Basicamente, a falta de sossego da mulher na vida cotidiana, tendo que conviver com problemas como assédio na rua e aqueles comentários invasivos de parentes sobre o seu corpo e a sua vida pessoal, são, de alguma maneira terrível, teletransportados para o aparelho celular. Sozinha, no conforto de sua casa, você pode ser perturbada por alguém que não está no mesmo lugar que você!


Para ilustrar melhor: um belo dia enquanto mexia na minha for you do Tik Tok, que é recheada de conteúdo sobre arte, moda, piadinhas, coisa de mãe de pet, curiosidades de história e geografia e tutorial de maquiagem, deparei-me com algo que me deixou pensativa por algumas horas. Era um vídeo sugerido de seguinte título: “Fazendo botox preventivo aos 25 anos”.

Dois prints da sessão "para você", do TikTok, em que duas mulheres compartilham suas experiências com o botox preventivo. A da esquerda diz que fez aos 23 anos e a da direita fez aos 27.
Criadoras de conteúdo compartilham no TikTok experiência com botox preventivo.

Tudo isso me causou certo espanto, nunca tinha pesquisado nada relacionado a procedimentos estéticos, ou plásticas, ou qualquer coisa do tipo. Pior, eu nunca nem tinha ouvido falar em “botox preventivo”. O que seria isso? Basicamente, a plataforma estava, sem cerimônias, recomendando que eu fizesse um botox preventivo estando na casa dos vinte anos. Fiquei revoltada, vi apenas alguns segundos do vídeo e cliquei em “Não interessado”, com uma falsa sensação de que eu tinha algum controle dentro da plataforma.


Depois, fiquei refletindo que, na verdade, as plataformas estavam tentando me vender (e muitas vezes conseguindo) diversos produtos, dos nocivos aos inofensivos, ou quase inofensivos. Estes dias mesmo, apesar da minha característica dificuldade em gastar dinheiro em coisas supérfluas, em meio a um desequilíbrio emocional, deparei-me com um anúncio do Instagram que vendia uma roupa que parecia ter sido feita especialmente para mim… Acabei, fatalmente, comprando.


O futuro é duvidoso

Como se não bastasse a nossa tentação de ceder aos belíssimos produtos do patriarcado, (de botox preventivo, a bolsa cara que você definitivamente não precisa, a mil produtos de skincare, a serviço de coloração pessoal), pensar sobre as gerações futuras de crianças e adolescentes me assusta bastante. Se na nossa época, de última geração que foi criança sem smartphone, já existia quase tudo de ruim e nós sofríamos com os padrões impostos pelas revistas, televisão e nossos conhecidos, amigos e familiares, imagina essas meninas que crescem com filtros do instagram no rosto?


O futuro parece não prometer muita coisa boa nesse sentido e, talvez, todos nós realmente devêssemos gastar mais o tempo vivendo a vida real do que piorando a vista e a audição ao ficar o dia inteiro no celular. Os grandes aplicativos estão, cada vez mais precocemente, roubando o dinheiro e, principalmente, o tempo e o sossego da vida das pessoas.


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