Uma Reunião à Mesa: Belchior e Os Mutantes
- Vinícius Ramalho

- 9 de fev. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 29 de jun.

É possível notar algumas semelhanças muito claras entre as músicas “Na Hora do Almoço”, de Belchior, e “Panis et Circenses”, d'Os Mutantes, uma vez que elas não apenas criticam a sociedade e a família tradicional brasileira no período da ditadura militar, mas também porque fazem o mesmo paralelo, ambientando suas ideias em uma reunião familiar à mesa. Essas semelhanças são intrigantes por si só, mas o que mais chama atenção são as peculiaridades na visão de cada artista, que os permitiram levar a mesma crítica por dois caminhos bem distintos.
Panis et Circenses
Lançada em 1968, a canção “Panis et Circenses” foi composta por Gilberto Gil e Caetano Veloso e ganhou fama no nascimento do tropicalismo com a interpretação de Os Mutantes. A composição de dois gigantes da música nacional retrata a alienação da população brasileira no período ditatorial. O nome da faixa escancara essa relação ao referenciar a política do pão e circo praticada na Roma antiga.
Com uma musicalidade psicodélica, a canção nos convida a caminhar por cenários fantásticos e disruptivos, onde todas as ações do eu-lírico são incapazes de surtir qualquer efeito na sociedade — aqui representada pelas pessoas sentadas à mesa de jantar — que só se importa com seus problemas e escolhe ficar alheia ao mundo ao seu redor.
O desejo reprimido de mudança é tema central logo na primeira estrofe, retratando uma classe artística que anseia por quebrar normas preestabelecidas e se rebelar contra ideias ultrapassadas. É importante observar, entretanto, um claro distanciamento entre o eu-lírico e essa sociedade criticada: a classe artística representada não se vê fazendo parte dessa reunião à mesa, mas se enxerga como um agente revolucionário externo que tenta desmontar o status quo.
Em meio a todos esses cenários causadores de desamparo, os compositores ainda encontram espaço para retratar esperança. As plantações de sonhos no jardim do solar, citadas na música, fazem referência à pensão onde Gil e Caetano se hospedaram no Rio de Janeiro, e podem ser entendidas como a esperança que eles cultivavam em um futuro melhor.
Nos últimos trinta segundos da faixa, ocorre uma interrupção abrupta, que abre espaço para a representação das tão citadas pessoas na sala de jantar. Ao fundo, em meio ao caos e à confusão que toma conta da mesa, é possível ouvir “Danúbio Azul”, de Johann Strauss II. A escolha pela música clássica não é aleatória, pois ela remete à ideia de uma sociedade arcaica e extremamente apegada ao passado.
Alguém poderia pensar que essa representação é apenas um floreio do psicodelismo que Os Mutantes imprimiam em suas músicas, mas vejo nesta cena algo muito mais profundo. A barreira entre o real e o ficcional se quebra. Como um ator que quebra a quarta parede, a canção nos coloca à mesa de jantar, mostrando que os ouvintes também fazem parte dessa sociedade que cultua o passado. A música deixa de ser apenas um meio para descrever hipotéticos desejos reprimidos de mudanças, agora ela é a materialização desse sentimento na realidade e está fadada a ser propositalmente ignorada como todas as outras tentativas nela descritas.
Na Hora do Almoço
Belchior recicla a representação de uma sociedade à mesa de jantar para traçar um paralelo com a obra d’Os Mutantes, mas retira os conceitos de rebeldia e pauta sua crítica na filosofia política. A composição fala sobre a opressão e o constante medo sentido pelo eu-lírico em meio a um sistema totalitário, revisitando o conceito clássico do “Leviatã”, de Thomas Hobbes.
A principal discordância de Belchior em relação à obra dos tropicalistas pode ser observada na maneira como ele se posiciona perante essa sociedade. Aqui, ele faz questão de entender seu lugar como ser presente na mesa de jantar, ou seja, ele se enxerga como parte dessa sociedade que tanto o oprime.
Outra discordância menos direta pode ser entendida na diferença de tom das duas obras. Enquanto a canção d’Os Mutantes expressa sonhos e esperança, a tristeza e o medo sentidos por Belchior são o prato principal servido em cada verso dessa nova reunião à mesa. A rabeca — instrumento de corda muito similar ao violino e comumente utilizada em forrós — está presente ao longo da música, criando uma tensão constante que reforça o sentimento de medo no ouvinte, além de fazer referência às raízes nordestinas de Belchior.
Para Hobbes, o medo é a base da existência humana. O homem, em seu estado natural, vive com temor do que outro homem possa lhe fazer, e por isso, no alto de sua liberdade, escolhe guerrear com outros de sua espécie. Essa é a justificativa para a criação do Estado hobbesiano, que concentra diversos poderes em um único representante de modo a, em nome da paz, controlar a população pelo medo. Esse representante é simbolizado pela imagem do Leviatã, e cada um de seus adornos faz referência a um dos poderes sob seu controle. Belchior faz referência a esse pensamento no ponto de vista de um desses homens controlados pelo medo.
A descrição do pai da família que se senta à mesa nos apresenta esta figura aos poucos, permitindo à nós montar mentalmente uma imagem quase grotesca que simboliza o Leviatã. Aqui, o poder do Estado, representado pelo monstro e pelo pai, se encontra enfraquecido sem seus adornos. A coroa não existe e abre espaço para uma figura decrépita de boca aberta e mãos vazias, sem a presença da espada ou do cetro. O corpo do grande rei está desprovido de seus súditos, sendo descrito como "deserto". Nesse contexto, entende-se que a imponência do Estado totalitário brasileiro era vazia e sustentada unicamente pelo medo.
Esse pai, mesmo enfraquecido, se senta à cabeceira da mesa, mantendo o punho cerrado e causando medo no eu-lírico. Aqui, é importante notar como Belchior propõe sua crítica em duas camadas: essa mesa de jantar não representa apenas a vida pública e política, mas também serve como instrumento para entender como esses conceitos totalitários e conservadores se alastram e infectam os núcleos familiares. Dessa forma, o desentendimento gerado à mesa nos remete à polarização de um Estado dividido.
A música se encerra com duas últimas estrofes que mais se parecem uma prece de um jovem desesperançado, nos fazendo entender que já não existem ações possíveis para mudar tal sociedade. A única coisa que resta é tentar viver, escondendo, em seu último verso, um grito visceral de ajuda à Nossa Senhora Aparecida.



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